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Márcio Villar – o brasileiro das ultramaratonas

foto: marciovillar.com

Foi tentando emagrecer que ele se iniciou nas corridas. Em pouco tempo, as provas de rua já não satisfaziam mais o carioca Márcio Villar, que, ao receber um convite por e-mail, se inscreveu em sua primeira ultramaratona. Hoje, aos 44 anos, ele busca experiências cada vez mais radicais e tem algumas de suas maiores conquistas tatuadas pelo corpo – entre elas, as três que compõem o circuito de ultramaratonas “Bad 135 World Cup”, em que foi o primeiro atleta do mundo a completar. Confira a entrevista que Villar concedeu ao Blog Running sobre sua trajetória.

Blog Running – Como você descobriu essa modalidade?

Márcio Villar – Foi sem querer. Eu nunca tinha escutado falar em ultramaratona e nem sabia o que era. Um dia, recebi um e-mail que anunciava uma prova de 24 horas em São Paulo. Quando li, não acreditei e pensei: ‘Como pode uma pessoa correr 24 horas direto?’. Depois de quatro dias lendo o mesmo e-mail e pensando “um dia eu vou fazer uma prova dessas”, decidi que aquela era a hora e fiz a inscrição. Não tinha ideia do que aconteceria, mas fui recebido de braços abertos por outros atletas, que me ajudaram muito. Além da equipe de fisioterapeutas, que foram os responsáveis por minha conquista – fizeram tudo por mim e, no fim da prova, abandonaram seus postos e foram para a beira da pista ficar na torcida por minha vitória.

BR – E como foi seu desempenho?

MV – Corri 166 quilômetros em 24 horas, ficando em primeiro lugar na minha categoria. Chorava feito criança de felicidade e ali começou meu amor pelas ultras. Depois disso, fui criando desafios cada vez mais difíceis.

BR – Qual foi o máximo de tempo que já passou em uma prova?

MV – Foram 83 horas, quando dobrei a “Ultramaratona Brazil 135” de 217 quilômetros em montanhas – totalizando 434 quilômetros. Também já fiz provas de sete dias, como a Jungle Marathon, na Floresta Amazônica. Mas, nesta prova, há uma pausa para dormir à noite.

BV – Como era esse período de ultramaratona para você?

MV – Quando estou em um grande desafio, posso me considerar a pessoa mais feliz do mundo. É o que amo fazer, onde me sinto feliz. Hoje em dia, eu não disputo mais provas de ultramaratonas. Crio meus próprios desafios, porque o que me motiva é fazer algo nunca feito antes. Então, estou dobrando as quilometragens das ultramaratonas.

BV – Quais você dobrou até agora?

MV – Já dobrei a Badwater, correndo 434 km no deserto do Vale da Morte na Califórnia; a Brazil 135, com 434 km em montanhas e, em junho, vou dobrar a Ultra dos Anjos (em Minas Gerais), correndo 470 km em montanhas.

BR – Em longos percursos assim, é comum olhar em volta e estar sozinho?

MV – Estou sozinho o tempo todo, praticamente. Mas isso não é um problema, porque meu foco está na linha de chegada e não penso em mais nada enquanto não conquisto minha meta.

BR – Quais são os maiores perigos?

MV – Depende da prova. A minha especialidade são provas em ambientes extremos. Na Jungle, por exemplo, eu corro no meio de cobras, onças e jacarés, atravessando pântanos. No deserto do Vale da Morte, nos EUA, tem cascavel, escorpião e coiotes. Na Arrowhead, o atleta puxa trenó entre os EUA e o Canadá, a – 40ºC entre coiotes, ursos e pumas.

BR – Por que o gosto por trajetos tão longos?

MV – Não tem explicação. Foi tudo acontecendo por acaso desde aquele primeiro convite por e-mail e fui gostando das ultras cada vez mais. Os atletas destas provas são diferentes – é uma família onde todos se ajudam.

BR – Qual é o sentimento ao término da prova?

MV – O sentimento é único. Você chora, ri e se sente a pessoa mais feliz do mundo. Não troco esse momento por dinheiro nenhum no mundo.

BR – Como é o seu treinamento?

MV – Meu treinamento depende do desafio. Faço adaptação e simulo a prova nos treinos. Se vou correr no deserto, treino no sol de meio dia e dentro da sauna. Se vou correr nas montanhas, treino subindo o Cristo Redentor. Caso seja na neve, treino puxando um pneu na areia para simular o trenó.

BR – E a sua alimentação?

MV – Como de tudo. Não tomo suplementos por serem caros. Então, tenho que me alimentar muito bem para não ficar com a imunidade baixa.

BR – Pode nos contar alguma situação extrema?

MV – Em janeiro, estava tentando bater o recorde mundial, dobrando todas as provas da Copa do Mundo. Ao correr sozinho no meio da floresta, puxando um trenó na neve a uma temperatura de 40 graus negativos, caí num buraco e rolei morro abaixo. Torci o pé e, para não morrer congelado, continuei na trilha por 8 horas até conseguir chegar num restaurante e ser socorrido.

Não aconselho ninguém a tentar fazer o que eu faço. Porque se a pessoa não estiver muito bem treinada fisicamente e mentalmente, o risco de morte é muito grande. É preciso ter sangue frio e raciocínio muito rápido, pois qualquer erro pode ser fatal

2 comentários para Márcio Villar – o brasileiro das ultramaratonas
  1. ROGERIO disse:

    ESTE REALMENTE É UM GRANDE EXEMPLO DE DEDICAÇAO E PERSISTENCIA.PARABÉNS!!!

  2. Maria vargas disse:

    Sem dúvidas, o ser humano mais cheio de garra que já conheci! Muita admiração.

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